E hoje não choveu...

Que a chuva dessa noite leve embora tudo que não foi resolvido. 
Que me leve embora toda escuridão; hoje eu não tenho lanterna. 
A plenitude não cabe nessas estrelas. 
Da garôa fina que foi embora, alagou esse chão incerto.

Hoje eu olhei pela janela o que não passou, espiei minhas escolhas. Nada eu pude fazer; sentei-me sobre essa angústia balançando a calmaria transparente dessa noite.
Decepções que não cabe mais em meu peito anseiam intensificar aqui dentro.
Das migalhas do meu destino eu juntei em meu prato.
Oh destino irônico! Faz-me rir com essas tuas peças.
Cuidado com ele, ele brinca com todo mundo.
Na lacuna de minha cama a insônia briga por um espaço.

Enquanto eu espero algo acontecer, enquanto eu deveria estar me movendo pra que tudo se resolva, estou aqui sentado, tomando meu café que outrora estava quente, olhando pela janela. aquela rotina intitulada, não gosto de rotinas.
Continuo aqui. Esperando. Enquanto eu espero engulo o seco. Não vou chorar, quando as coisas tem que acontecer elas simplesmente acontecem.
Quero andar nessa mar negro de águas silenciosas, nessa areia noturna espalhando em meus pés, sentar sozinho em algum lugar desconectado de qualquer coisa que possa existir, conectado somento comigo e com as estrelas.
Quero que alguém me abrace, assim, sem falar nada, mesmo que seja um desconhecido. Preciso nessa noite de um abraço daqueles bem apertados.
Sinto-me confuso, mas agora é diferente, ando esses dias indeciso e impaciente. Nessa confusão que me mata.
Da janela, vejo tudo isso acontecer, a tarde que foi quente agora se faz fria, e aos poucos o silêncio calmo da rua vai se transformando com o som do trovão aqui dentro.

Como eu quero o tudo! Mas o tudo é muito e o muito é ambição.
Desconstrui meus muros da insolência.
A ignorância bate aplausos, a inteligência  tornou-se infeliz.

No meu peito dói o tudo que não foi resolvido e esgota minha complacência.
Quero tomar o veneno que eu mesmo fiz, embriagar nessa realidade que pouco se faz.

Fiz de mil pedaços para que me pudessem juntar. Fiquei despedaçado.
Todo o meu suor foi derramado em vão.
Cortaram de mim toda a recompensa.
Desejei mas não deixaram.
Tentei chorar, mas não consegui. O rancor secou minhas lágrimas.

O que eu quero é incerto, é indeciso. Eu sou indeciso.
Nunca me peça pra ser decidido quando tiver que ser decidido.
Sou indeciso para dar explicações.
Eu sei o que eu quero. Não o que vou decidir. Eu quero amar e me entregar, ser feliz, sonhar, fazer algo de importância pelo menos pra mim nessa vida, quero distribuir sorrisos às bocas alheias.
Ser indeciso é ser para-raio de todas as possibilidades do mundo. A sabedoria estar em não se apegar em certezas.
Dúvidas são mais interessantes, certezas são tão monocráticas.
Que essa chuva leva todas as certezas sem graça. Que me traga a felicidade desse mundo, que volta e meia é tão mesquinho, tão minusculo e vasto em possibilidades e desacertos.

Só por hoje eu quero ficar deitado, longe de tudo, de todo mundo, esperar essa chuva ir embora e levar todos esses desencantados sentimentos e decepções.
Só por hoje eu vou fechar os olhos e dormir, sonhar que tudo isso seja um sonho e que ao acordar tudo possa estar resolvido. Enquanto isso vou vivendo um dia de cada vez.

E hoje não choveu...

Comentários

Postagens mais visitadas